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05/11/2009

MISTERIOSA DOENÇA MATA MAIS DE UM MILHÃO DE MORCEGOS NAS CAVERNAS DOS EUA

Por: Marcelo Kramer

Uma enigmática e fatal doença descoberta há três anos está matando milhões de morcegos nas cavernas do nordeste dos Estados Unidos. A primeira evidência da White-Nose Syndrome – WNS (Síndrome do Nariz Branco) foi documentada em uma fotografia tirada na Caverna Howes, a cinqüenta e dois quilômetros ao oeste de Albany, New York, em 16 de fevereiro de 2006. Desde que surgiu, a WNS já foi confirmada, através de exames histológicos de morcegos, em diversas cavernas e minas de Massachusetts, New Jersey, Vermont, West Virginia, New Hampshire, Connecticut, Virginia e Pensilvânia. No final de 2008, os dados indicavam um declínio de 75% da população de morcegos em dois anos.

A WNS é caracterizada como uma condição da hibernação dos morcegos e foi nomeada devido ao fungo branco que cresce principalmente na área do focinho, mas também notado muitas vezes nas orelhas e nas membranas das asas dos morcegos afetados. Os morcegos infectados apresentam comportamentos incomuns se deslocando para partes frias dos hibernáculos, voando durante o dia e durante o clima frio do inverno, quando os insetos de que eles se alimentam não estão disponíveis.

Atualmente, seis espécies de morcegos hibernantes no nordeste dos EUA são afetadas pela WNS: Myotis lucifugus, Myotis septentrionalis, Eptesicus fuscus, Perimyotis subflavus, Myotis leibii e o Myotis sodalis. Das quarenta e seis espécies de morcegos existentes nos Estados Unidos, vinte e cinco habitam as cavernas, correndo o risco de serem afetadas pela síndrome no futuro. Cerca de vinte e cinco laboratórios e agências do Governo norte-americano estão envolvidos na pesquisa da WNS. Os cientistas estão investigando desde os agentes infecciosos, até os contaminantes ambientais.

 
Um estudo publicado na revista Science, em outubro do ano passado deu as primeiras pistas sobre o fungo causador da patologia. Através de microscopia direta e análise de cultura da pele de alguns morcegos infectados, os cientistas concluíram que o fungo é relacionado com o gênero Geomyces spp., mas com os esporos apresentando uma morfologia diferente dos membros deste grupo. O fungo foi isolado a partir de dez morcegos que apresentavam WNS e cultivados em laboratório sob diferentes temperaturas. Os resultados mostraram que ele se desenvolve muito bem entre 5°C e 10°C, apresentando pouco crescimento próximo a 15°C, sendo a temperatura limite de crescimento os 20°C. A temperatura nos hibernáculos afetados pela WNS varia sazonalmente entre 2°C e 14°C, permitindo assim a sobrevivência do fungo durante todo o ano.
 
Análises histológicas de cento e dezessete morcegos necropsiados mostraram que a hifa do fungo substituiu os folículos capilares e as glândulas sebácea e sudorípara associadas, atingindo a membrana basal e invadindo a região tecidual, abrindo caminho para outros agentes infecciosos, como bactérias. As hifas também erodiram a epiderme das orelhas e das asas. E, ainda, a maioria dos morcegos com a infecção fúngica apresentava pouca ou nenhuma reserva de gordura, crucial para o sucesso do período de hibernação. Os morcegos possuem a incrível habilidade de estocar gordura, suficiente para hibernar por 40% do ano, mantendo-os vivos durante o inverno. Entretanto, aqueles que são mortos pela WNS, geralmente morrem de fome, pois o estoque de gordura, de alguma forma, esgota-se antes do inverno terminar.
 
São muitas as semelhanças entre a WNS e a Chytridiomicose, uma infecção letal em anfíbios causada pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis. A Chytridiomicose tem causado o declínio de várias populações e até mesmo a extinção de diversas espécies de anfíbios no mundo todo. E, apesar de já se conhecer a doença há mais de dez anos, ainda não existe nenhuma medida realmente efetiva de controle da patologia nas populações selvagens.
 
O fungo causador da WNS foi identificado recentemente como uma nova espécie, chamada Geomyces destructans, que, assim como o fungo da chytridiomicose, parece ter “surgido” de repente e está se espalhando. Porém, não se descarta a possibilidade de que o fungo ocorra naturalmente e que foi apenas identificado agora por ter se tornado mais virulento, prevalente no ambiente ou que as populações hospedeiras se tornaram menos resistentes à doença.
 
A distribuição da WNS sugere que o homem seja um possível transmissor do fungo, a maior evidência disso é que os primeiros registros de WNS no estado de Virginia foram em cavernas turísticas, visitadas várias vezes por caverneiros, que haviam previamente freqüentado áreas afetadas pela WNS em New York. Ainda é desconhecido se o homem é o único vetor da doença ou se é somente o vetor primário, mas a transmissão da WNS pelos humanos pode contribuir potencialmente para extensão geográfica da síndrome. Devido a esse fato, medidas mais sérias foram tomadas pelas agências e órgãos federais responsáveis pela proteção das cavernas. Entre elas, o fechamento de diversas grutas e ações de descontaminação das roupas e equipamentos dos caverneiros, seguindo um protocolo que vem sendo alterado de acordo com as novas descobertas sobre a síndrome.
 
Os benefícios dos Morcegos
 
Representando um quarto de todas as espécies de mamíferos, as mil cento e dezesseis espécies de morcegos do mundo desempenham vários serviços, entre eles a polinização e dispersão das sementes de mais de trezentas espécies de plantas economicamente importantes. Nos Estados Unidos, a maioria das espécies de morcegos é insetívora. Um único Myotis lucifugus pode comer mais de mil e duzentos insetos em uma hora. Além de ser a principal fonte primária de alimento para a maioria dos ecossistemas de caverna do mundo, o guano (fezes) dos morcegos, recentemente renovou a sua popularidade como fertilizante, por ser totalmente natural e orgânico. Além disso, enzimas descobertas em bactérias que crescem no guano são usadas na produção de detergentes.
 
Até mesmo os tão temidos “morcegos-vampiros” que são achados unicamente na América Latina, trazem benefícios para o homem. Uma substância presente na saliva desses morcegos está sendo usada na pesquisa médica para o desenvolvimento de novos remédios contra hemorragia.
 
“Os morcegos são uma parte vital de nosso ecossistema e o desaparecimento deles pode representar um impacto profundamente negativo na saúde humana e na agricultura,” disse a doutora Hazel Barton, espeleóloga e microbiologista da Northern Kentucky University. Barton e seus estudantes passaram os últimos meses investigando a WNS nas cavernas ainda não infectadas de Kentucky. “Eu passei minhas férias de verão investigando uma das maiores crises da vida selvagem do nosso tempo. O trabalho que nós estamos fazendo está focado em prevenir a dispersão do fungo e proteger os morcegos antes que ele atinja essa área.”, disse Hazel.
 

 

Para saber mais acesse:
http://www.caves.org/WNS/
http://www.fws.gov/northeast/white_nose.html
http://botit.botany.wisc.edu/toms_fungi/may2009.html
http://www.jcu.edu.au/school/phtm/PHTM/frogs/batrachochytrium.htm
 
Assista, ainda, alguns vídeos sobre a WNS:
http://www.cbsnews.com/video/watch/?id=5292375n&tag=related;photovideo
http://www.vimeo.com/4894773
 
 

 

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